Cinebiografia de Marinette Pichon, grande estrela do futebol feminino da França, cujo drama pessoal acabou por impulsionar sua carreira

Se existe um gênero complicado no cinema é contar a história de uma pessoa com importância social, nacional ou mundial. O primeiro fato é que não dá para contar a história da vida de uma pessoa em pouco mais de duas horas de duração. Segundo, e talvez o mais importante, será que a história dessa personalidade é exatamente essa?
Uma pergunta que já tentei responder ao longo de vários filmes, várias cinebiografias, especialmente a de figuras importantes do cenário musical. Sonhos Dourados, de 1946, colocou Larry Parks no papel de Al Jolson, o cantor de jazz que participou do primeiro filme falado da história do cinema, em 1927. Vi pela televisão e fiquei impressionado com a voz de Jolson, que dublou Parks no filme.
Em O Grande Caruso (1951), Mario Lanza faz um dos maiores tenores da música clássica usando talento e sua voz que ilustrou vários musicais da Era de Ouro da MGM. Tem Sissy Spacek, que após aterrorizar muita gente com Carrie – A Estranha (1976), mostrou que sabe cantar para fazer um dos nomes importantes da música country americana, Loretta Lynn, em O Destino Mudou Sua Vida (1980). Ela ganhou um Oscar pelo filme.
Da mesma forma, o jovem ator Rami Malek levou a estatueta mais cobiçada do cinema ao fazer o lendário Freddie Mercury, vocalista da banca Queen, no premiado Bohemian Rhapsody (2018). Enquanto Taron Egerton incorporou o espírito descomplicado de Elton John em Rocketman (2018). Não ganhou o Oscar, mas faturou o Globo de Ouro.
E chegamos a Marinette, que chegou ao Looke. O filme é a visão da roteirista e diretora Virginie Verrier sobre um dos grandes fenômenos do esporte francês, a jogadora de futebol Marinette Pichon, bem interpretada por Garance Marillier, da minissérie Desaparecido para Sempre, de Harlan Coben.
Por mais que seja um tradicional clichê sobre superação, a carreira de Marinette e sua vida familiar caminham em paralelo, muitas vezes se chocando como um encontrão de um zagueiro para impedir o avanço de um atacante. E com resultados nem sempre bons para qualquer um dos jogadores.
No caso da jogadora de futebol, Marinette teve diversas barreiras para conquistar seu lugar dentro de seu time. Barreiras que quase a levam a abandonar a carreira, da mesma forma que a crise com a violência doméstica quase a deixa fora do planeta, sem exagero. Sem contar seus dramas pessoais com suas namoradas, paixões que levaram um pouco de seu entusiasmo em determinados momentos. Não é uma história de fadas em que, após sofrer duros golpes do destino, o sol volta a brilhar e ela vive feliz até o final do filme.
Ao contrário, seus dramas ajudaram a formar seu próprio caráter como pessoa e como jogadora. Num determinado momento do filme, sua carreira recebe um novo impulso quando é contratada para jogar num time dos Estados Unidos.
Aqui cabe uma informação sobre o soccer, como é conhecido o nosso futebol nos Estados Unidos. Foi graças a Pelé, que foi jogar no time do Cosmos no final dos anos 70, que o soccer ganhou força junto aos jovens americanos. Veja quantas séries de TV tem algum personagem que joga ou tem filhos jogando soccer. Especialmente junto às jovens americanas que encontram, nesse esporte, um esporte para dedicação total. Tanto que a primeira copa do mundo de futebol feminino foi vencida pela equipe dos Estados Unidos, em 1991.
E nesse universo próspero, vamos ver Marinette mostrando todo o seu talento como jogadora, muitas vezes menosprezada pelas próprias conterrâneas. Para os fãs do lendário esporte bretão, Marinette tem bons momentos de tensão durante a partida, discussões acaloradas e claro, a vida da jogadora que, aos poucos, vai encontrando seu próprio caminho.
Não é uma biografia perfeita. Mas é um daqueles raros momentos do cinema em que a adaptação da realidade faz bem para os olhos e para o espírito.