
Criador da antologia Fargo lança sangue ácido na franquia iniciada em 1979 com Alien – O Oitavo Passageiro
Acredito que o século XXI é o século do revisionismo tanto no cinema como na televisão. Já vimos cineastas e produtores contarem novas origens de personagens. Veja a polêmica gerada por James Gunn ao mostrar em Superman que os pais biológicos do Homem de Aço tinham uma agenda bem diferente do que foi convencionado nos quadrinhos, nas séries de TV e claro, nas primeiras adaptações do Super-Homem no cinema.
Ridley Scott, responsável por transformar a ideia original de Dan O’Bannon no sucesso de terror espacial Alien – O Oitavo Passageiro (1979), decidiu que poderia criar uma origem para a criatura espacial mais violenta do cinema. Começou com o filme Prometeus (2012), que mostra uma expedição espacial patrocinada por Peter Weyland (Guy Pearce) para localizar os responsáveis pela origem da humanidade.
Primeiro erro: achar que é possível se afastar das questões religiosas relacionadas com a Criação, colocando o ego de Scott muito acima do tolerável. Como aventura espacial, o filme é interessante. A partir do momento que mexe no conceito de que a “culpa” da humanidade ser “defeituosa” está nos ombros de uma raça avançada, a possibilidade de erro é gigantesca. E é o que acontece em Alien: Covenant (2017), também assinado por Ridley Scott.
O filme começa com a descoberta de que David (Michael Fassbender), o androide colocado na Prometeus, dizimou a raça dos Engenheiros, aqueles que seriam os criadores da humanidade. Sim, o androide com complexo de Deus é responsável pela criatura que quase destruiu toda a tripulação do Nostromo no filme de 1979.
Felizmente, essa egotrip de Ridley Scott não deu certo. Não foi um fiasco de bilheteria: Prometeus custou 130 milhões de dólares e faturou quase 450 milhões, enquanto Covenant custou 97 milhões e balançou em torno de 240 milhões ao redor do mundo. Mas, com certeza, quase acabou com a franquia criada pela Fox a partir do sucesso mundial de Aliens – O Resgate, feito em 1986.
O jovem cineasta uruguaio Fede Alvarez surgiu no horizonte para mostrar que ideias originais não precisam contar a origem de nada. Foi assim que ele mostrou como recriar a tensão espacial da ideia original de Dan O’Bannon com Alien: Romulus (2024). O primeiro ponto favorável do filme é que ele se passa quase vinte anos após os acontecimentos que destruíram o Nostromo. Ou seja, uma referência direta ao primeiro filme. Outro ponto importante é que trouxe para esse período o mesmo tipo de tecnologia vista do primeiro filme. Além, claro, de várias referências do filme original, e de ter faturado 350 milhões de dólares nos cinemas ao redor do mundo, com um orçamento de produção perto dos 80 milhões. Lucrou, claro.
O que nos leva a questão que motivou toda essa introdução: como produzir uma série de TV que leve em consideração os acertos da franquia, não apenas para agradar os fãs, mas para trazer novos curiosos para ver de perto o terror que gerou a épica frase: “No espaço ninguém vai ouvir você gritar!”
A série surgiu da mente criativa de Noah Hawley, que escreveu episódios da série Legião, sobre um obscuro personagem mutante da Marvel e transformou o sucesso dos irmãos Coen, Fargo – Uma Comédia de Erros (1996), numa das melhores antologias sobre crime e castigo, lançada em 2014. Noah, fã confesso do clássico de 1979, decidiu aproveitar a ideia usada em Romulus para mostrar que a monstruosa criatura já esteve na Terra causando. E não estou falando da referência do filme Alien Versus Predador (2004).
O fato é que Noah criou uma história contemporânea aos eventos que, teoricamente, levariam à missão do Nostromo. Neste futuro distópico, sabemos que a Terra é basicamente dominada por 5 grandes corporações tecnológicas. Cada uma delas luta sujo para dominar o planeta. É na nave espacial Maginot, que pertence a Weyland-Yutani, a mesma empresa da Nostromo, que nasce a crise.
Lançado para explorar o espaço profundo, a Maginot acaba descobrindo uma raça de predador espacial que pode ser transformada numa arma biológica muito eficiente. Uma eficiência que acaba por eliminar toda a tripulação da nave e a colocando em rota de colisão com a Terra. Mas para desespero da corporação, a Maginot vai cair no centro de uma das cidades controlada pela Prodigy, sua principal concorrente.
A Prodigy está se preparando para lançar uma das mais sofisticadas pessoas sintéticas já construídas, superior a robôs e androides comuns nesse tempo da Terra. Os Híbridos da Prodigy têm corpo de androides.
E aí vem a pegadinha: todos os novos Híbridos fazem parte do Projeto Garotos Perdidos, numa homenagem direta a Peter Pan. A primeira híbrida é Wendy (Sidney Chandler), que lidera o pequeno grupo de híbridos para investigar a área onde a Maginot caiu. Só que Wendy tem outro motivo. Seu irmão Joseph (Alex Lawther) é um dos soldados médicos da cidade que vai ajudar as vítimas desse inusitado desastre, sem saber que a irmã vive no corpo de um androide.
O que ninguém sabe ainda é que, além de várias espécies de criaturas de outros planetas, um dos aliens conseguiu se libertar de sua prisão na Maginot, causando a queda da nave. E, para piorar, o androide encarregado da segurança da Nave, Morrow (Babou Ceesay), é um androide que tem a missão de entregar a carga para a Weyland, mesmo que para isso, tenha que eliminar qualquer interferência.
E tudo isso acontece no primeiro episódio…
O clima de tensão vai aumentando a cada episódio, especialmente quando o pessoal da Prodigy, liderados por Kirsh (Timothy Oliphant), cientista sintético da Prodigy e mentor de Wendy, começa a realizar experiências com os ovos dos alienígenas. Será que ele vai ultrapassar os limites do razoável para descobrir como usar essas criaturas como armas biológicas? Ou será que estamos vendo o estopim de algo que pode acabar com a Humanidade como a conhecemos?
Alien: Earth é um achado dentro da franquia. Além de respeitar os preceitos sobre a criatura imaginada por Dan O’Bannon, a série coloca na linha de frente um grupo de crianças superpoderosas que não tem ideia do que irão enfrentar ou porque precisam fazer isso. É como se fossem lutar com a tripulação do Capitão Gancho sem o lendário pó de pirlim-pim-pim. Vai ser algo brutal.
A série mostra também que os interesses dessas megacorporações não têm nada a ver com o bem-estar da humanidade ou o futuro do planeta. Assim como vemos hoje as empresas globalistas afirmarem querer um futuro melhor para os humanos que vagam pelo planeta.
Alien: Earth é uma série diferente. Não importa se você viu ou não algum dos filmes da franquia. É uma história bem construída, que mistura sentimentos novos para quem acabou de ganhar uma segunda chance como híbrido, e violentas decisões que podem definir o futuro do planeta, ou melhor, o futuro da raça humanas.
Os próximos episódios serão cruciais…
Paulo Gustavo Pereira