O quinto filme com os personagens da Marvel dos anos 60 esquece os quadrinhos e faz adaptação do divertido desenho animados dos anos 70

Quando o Universo Marvel começou a ser consolidado dentro da Disney Company, um dos poucos projetos de adaptação dos heróis da editora de Stan Lee ainda era considerado algo para deixar de lado e seguir em frente. Falo do Quarteto Fantástico, que foi o primeiro grupo de heróis mutantes que Stan Lee e Jack Kirby criaram para a Marvel Comics em 1961, tornando-se o primeiro sucesso editorial da editora.
O problema básico é que o quarteto formado por Reed Richards (Senhor Fantástico), os irmãos Sue (Mulher Invisível) e Johny Storm (Tocha Humana) e Ben Grimm (O Coisa), já tinha quatro adaptações para o cinema, que não empolgaram o público em geral. A primeira adaptação veio em 1994, produzido por Roger Corman que, de tão ruim, nunca chegou aos cinemas por causa dos seus “defeitos” especiais, dizem. Se quiser arriscar, ela está em algum canal do Youtube.
Depois a Fox, na onda dos super-heróis da Marvel, arriscou suas fichas no primeiro Quarteto Fantástico, feito em 2005. O sucesso relativo do filme fez com que, em 2007, a Fox produzisse Quarteto Fantástico e o Surfista Prateado, o personagem clássico das histórias do Quarteto criadas por Jack Kirby. Mas foi uma decepção.
Já em 2015, a Fox tentou reabilitar uma possível franquia, com uma nova versão politicamente correta, lacradora e inclusiva, mudando a personalidade desses personagens clássicos. O resultado não apenas foi um fiasco de bilheteria, como também provocou uma ira nada silenciosa dos fãs pelo que o diretor Josh Trank (Poder sem Limites) e os roteiristas Simon Kinberg (Perdido em Marte) e Jeremy Slater (The Umbrella Academy) fizeram com os personagens.
E aí chegamos em 2019, quando a Disney comprou a 20th Century Fox e, por contrato, os personagens da Marvel que estavam no estúdio, como os X-Men e o Quarteto Fantástico, entraram na futura linha de produção de novos filmes e séries. E assim uma nova era começou…
Confesso que quando ouvi os rumores de um novo filme sobre o Quarteto Fantástico, minha primeira dúvida era saber se precisava fazer um novo após quatro tentativas fracassadas. A resposta veio com o primeiro trailer, em que a história se passa nos anos 60. Assim como a série Alô, Amanhã, o conceito básico da nova adaptação era usar o retrofuturismo para criar a história e o cenário para o filme.
Para quem não conhece, o retrofuturismo é colocar a tecnologia do futuro no passado conhecido. Esse conceito foi aplicado na história do novo filme que mostra o confronto do Quarteto, formado por Reed (Pedro Pascal), Sue (Vanessa Kirby), Johnny (Joseph Quinn) e Ben (Ebon Moss-Bacharat), que estrategicamente tem um subtítulo que explica tudo aquilo que será visto na tela: Quarteto Fantástico – Primeiros Passos.
Só para esclarecer, a base da história do filme é uma mescla dos quadrinhos com a série animada de 1978, em que nasce o robô H.E.R.B.I.E – Humanoid Experimental Robot B-Type Integrated Electronics, ou Robô Experimental Humanoide B-Type Eletrônica Integrada, numa tradução livre. Aliás, H.E.R.B.I.E entra nos quadrinhos quase um ano depois, na revista do Quarteto. Ou seja, mesmo com as tradicionais referências dos personagens criados por Lee e Kirby, a adaptação vem do desenho animado que também não tinha a presença do Tocha Humana. E por isso, o filme não tem dramas existenciais. É um filme para levar a família inteira para ver.
O filme começa com uma referência importante. Desde que Gardner Fox e Julius Schwartz criaram o conceito de Multiverso em 1961, na história “Flash de Dois Mundos” (Flash- 123), criar histórias em universos paralelos se transformou na salvação de muito roteiristas que não consegue adaptar determinadas histórias que, muitas vezes, se chocam com as origens dos personagens.
Logo, Quarteto Fantástico – Primeiros Passos vive na Terra 828, que se passa nos anos 60, onde a tecnologia criada por Reed Richards permitiu a viagem ao espaço que acabou transformando sua esposa e seus amigos em seres poderosos. A história começa com uma homenagem aos trabalhos que o Quarteto vem fazendo pelo planeta, até que uma ameaça sem precedentes chega na forma de uma surfista prateada (Julia Garner).
Ela é o arauto de uma forma de vida muito mais poderosa conhecida como Galactus, o devorados de mundos. O confronto é iminente, fazendo com que o Quarteto entre em sua nave espacial e vá encontrar Galactus e impedir o pior. Ao encarar a gigantesca criatura, a oferta para impedir a destruição da terra é simples: Galactus quer o filho ainda dentro de Sue!
A partir daí, não dá para contar mais nada, para não estragar algumas das divertidas surpresas que o filme traz, não apenas para fãs dos personagens, como para quem se encantou com o visual fascinante do filme através do trailer. Tudo bem que é baseado no desenho animado sem o Tocha Humana. Mas o Tocha feito por Joseph Quinn, tem o humor dos quadrinhos e o sarcasmo da versão feita por Chris Evans, antes de se tornar o sério Capitão América.
É uma aventura colossal, não apenas por apresentar a forma correta do pesadelo gigantesco que Galactus representa, mas colocando o drama da nova Surfista Prateada, que é uma prisioneira de seu próprio heroísmo. Da mesma forma que colocou o seu Surfista angustiado de estar longe de seu planeta natal, Zenn-La, o novo filme aponta a dor da perda da Surfista, como o ponto forte de sua personalidade, que será decisivo no confronto entre O Quarteto e Galactus.
Muitos fãs sentirão falta de algumas homenagens aos filmes anteriores, mas, sutilmente, há uma referência que poucos saberão. Logo no começo do filme, quando um noticiário de TV fala sobre as façanhas do grupo, o apresentador do telejornal é o ator Alex Hyde-White. Para alguns, ele foi o neto do industrial que briga com Richard Gere no romântico Uma Linda Mulher (1990). Na realidade, Alex foi o primeiro Senhor Fantástico, no filme de 1994. Um filme esquecido, mas lembraram dele para uma homenagem bem interessante.
Podem dizer que essa nova versão tem exageros, alguns problemas de roteiro, etc. É bom lembrar aos detratores que estamos falando de personagens de gibis, criados para uma mídia que poucas pessoas hoje entendem. Quarteto Fantástico – Primeiros Passos é o ponto de partida para novas aventuras do Universo Marvel no cinema.
Aviso: tem cenas adicionais no final do filme. Não saia para não se arrepender depois…
Paulo Gustavo Pereira