Ficção-científica diferente mostra que a morte pode ser burlada desde que você esteja disposto a perder sua alma no processo

Quando o filme Os Guardiões chegou aos cinemas ocidentais, tratava-se uma produção fora dos padrões vindos da Rússia, que por décadas ficou sob o sombrio manto da União Soviética. Um filme de super-heróis mutantes, algo comum para os ocidentais, mas totalmente inovador para o público que nunca teve muita liberdade de escolha quando a União Soviética comandava gostos e desejos.
Por isso, é interessante apreciar a moderna ficção-científica que vem sendo produzida pelos ex-países soviéticos, como a República Tcheca, palco dessa fantástica obra com um conceito de imortalidade fora dos padrões ocidentais.
E começa com os créditos iniciais, apresentando ao espectador o que ele irá ver nas próximas duas horas: “A crescente desigualdade social e econômica, está levando a um aumento violento da criminalidade na Europa Central. Devido ao crescente medo na sociedade, todos os cidadãos obtiveram o direito constitucional de serem revividos em caso de morte não natural. Essa nova tecnologia é chamada de Cópia de Segurança”.
Essa nova tecnologia obriga qualquer usuário a fazer uma cópia de segurança de suas memórias a cada 48 horas, para que, no caso de um incidente fatal, seja possível restaurar a pessoa quase no exato momento em que ela foi assassinada. É no meio da investigação de um casal assassinado que a agente especial Em Trochinowska (Andrea Molylová) descobre ligações do crime com a organização radical que é contra os padrões naturais do ser humano.
O escritor Richard Morgan em seu Carbono Alterado, publicado em 2002, criava um mundo onde os dados de informações armazenados no cérebro de uma pessoa, poderia ser transferido para um outro corpo, quando o corpo original morresse. A ideia criada pelo diretor e roteirista Robert Hloz é mais avançada, já que o corpo original é preservado, até que os dados originais restaurem a personalidade original antes da morte.
Independente da questão técnica ou tecnológica, o filme mostra o dilema moral de tentar escapar da morte, burlando a ordem natural. É o dilema da agente Em, quando sua investigação esbarra em questões políticas. Afinal, quem está interessado em alterar a vida e a morte dessa sociedade do futuro? Será que essa mudança ajuda a restaurar a confiança do povo sobre a sociedade como um todo ou isso é apenas uma cortina de fumaça para uma questão moral muito maior?
É interessante notar que é uma discussão sobre a vida em tons mais práticos do que filosóficos, como visto em obras mais soviéticas como Solaris (1972) ou Stalker (1972), obras-primas da Ficção-Científica feitas sob a União Soviética. Uma das curiosidades do filme é a utilização da clássica música Clair de Lune, do compositor francês Claude Debussy, para pontuar o cotidiano de Em, especialmente sua vida pessoal.
Em Cópia de Segurança, viver ou morrer não é apenas um novo conceito, mas para seus personagens, ultrapassa um estilo de vida. Confira assistindo essa obra tcheca no Looke.